quinta-feira, 3 de abril de 2014

Por entre as Brumas de Guimarães

Se eu tivesse que escolher sobre uma lista dos 10 lugares mais belos de Portugal, quanto aos outros 9 eu talvez tivesse dúvidas ,mas quanto a este não, porque me lembraria logo,  da cabeça do Convento de Santa Marinha, A Varanda de S. Jerónimo. 




Daqui avista-se plenamente Guimarães na sua maior exuberância. Guimarães no tempo e no espaço. No tempo e na alma. Escolhi esta cidade para tentarmos perceber melhor como "Portucale" ou melhor dizendo Portugal nasceu.

O princípio foi sem dúvida no Castelo da cidade de Guimarães, ao redor de toda a colina por onde se avista ainda as muralhas e a Grande Torre de Menagem. 

Por volta do século X, a Condessa Mumadona Dias mandou construir uma forte torre para proteger um convento que tinha fundado ali perto, que veio a ser o núcleo central do Castelo de Guimarães.

Diz-se com uma certa pretensão que Guimarães esteve no centro da História de Portugal em muitos momentos definitivos da consolidação deste Reino e serviu de baluarte ao nosso primeiro Rei D.Afonso Henriques. 

Foi deste Castelo que ele partiu para travar o combate de S.Mamede e em muito ensejo este lugar serviu de epicentro ao movimento que fez nascer definitivamente o Reino de Portugal.

Mas a História está sempre a pregar partidas, e o exemplo disso foram os nossos compendios de história antigos por onde aprendemos as nossas primeiras lições, e dentre muitas dessas aprendemos que Guimarães nasceu à sombra do Castelo. 

E o que observamos hoje em dia quando olhamos para esses imensos arcos em ferradura dentro da Torre de Menagem do Castelo? 

De facto concluímos que remontam ao século VI e VII quando os Visigodos dominaram toda esta vasta região, alias estamos a falar em toda a Península Ibérica. Portanto 300 anos antes da construção do Castelo. Quer dizer muito antes do Castelo já aí existia edifícios importantes. 

Aquelas ruínas apareceram nos anos 70 da nossa época quando estavam a fazer as obras de restauro e conservação da Pousada de Santa Marinha da Costa e entre elas se destacou um claustro românico talvez do século XII e pensa-se que se originou dum Convento que a Rainha D.Mafalda, esposa do nosso primeiro Rei D.Afonso Henriques, ai mandou construir.
Como esta descoberta é de facto curiosa, porque comprova a ideia que os vimaranenses têm que Guimarães era a cidade Real no tempo do nosso primeiro Rei.




Estas obras desta Pousada merecem ser apontados como um exemplo, como um respeito pela história e pelo passado e não prejudicou a beleza e o conforto do estabelecimento moderno.


Esta igreja está relacionada com o nascimento de Portugal. É uma tradição muito antiga, e diz que D.Afonso Henriques foi baptizado neste local. 
Um dos orgulhos dos habitantes de Guimarães é que D.Afonso Henriques nasceu aqui. Isso disse-se durante muito tempo sem que ninguém se lembrasse de dizer o contrário, mas depois começaram as discussões. O erudito em Coimbra disse que tinha sido nessa cidade que nasceu, agora um erudito em Viseu afirmava que não tinha sido nem em Coimbra nem em Guimarães mas em Viseu. Uma coisa todos nós sabemos uma certidão de nascimento não há, agora como verdade simbólica e única aceitável é Guimarães. 




Esta era a cidade condal. Foi aí que os Pais de D.Afonso tinham os seus Paços. Podemos quase testar toda a veracidade deste nascimento e se não foi deveria ter sido quase como um dever, e até ninguém arranjou provas melhores.



Estamos no Largo da Oliveira e não existe lugar melhor para entender a cidade.



Aqui vemos o Pórtico oferecido pelo Rei D.João I como agradecimento da vitória de Aljubarrota.


Depois ai mesmo nesse largo o Rei D.Afonso IV mando erguer um Padrão para celebração pela vitória do Salado.


 Mas este outro Padrão que alberga um cruzeiro não foi oferta dum Rei mas de um Mercador, um mercador que fez bons negócios na Normandia e trouxe essa enorme cruz de pedra para oferecer a Santa Maria de Oliveira e também a oliveira é prenda do mercador que andou pelo Oriente, tinha negócios no Mediterrâneo e trouxe uma cepa de uma Oliveira. Dizia ele que do próprio jardim das Oliveiras onde Jesus Cristo padeceu e a pôs nesse lugar. Isto pode ser lenda ou uma bruma por entre histórias, mas uma coisa nós sabemos, foi das prendas dos Reis orgulhosos das vitórias e das ofertas dos Mercadores, gratos pelos bons negócios que Guimarães nasceu.

Guimarães é essencialmente uma terra de mercadores de burgueses. São os Burgueses de Guimarães que ajudam o seu Príncipe Afonso Henriques a resistir e a conquistar a independência. 

Guimarães vai depois pelo tempo fora tomar sempre esse partido progressista popular em oposição ao pólo de Braga. Ao passo que Braga era a terra ilustre mas austera apertada dos Senhores Arcebispos, Guimarães vai ser o Burgo aberto e livre de mercadores que percorrem todo o Mundo.

Acho que ainda hoje Guimarães neste seu sabor castiço, nesta sua típica cidade insuperável, ainda hoje nos leva à ideia de que foi essa raiz popular de cidade.


  
Talvez seja por isso, esse carácter de símbolo de Portugal, coração histórico é que justifica que o Duque de Bragança tenha mandado construir esse Palácio. O ilustre Paço dos Duques de Bragança.

E com isto obriga-me a questionar o seguinte: 

Apenas deixo a dúvida para quem esteja atento a esta leitura. 

Cada um fará o seu julgamento.

Se ele era Duque de Bragança, que ficava a milhas de Guimarães e tinha um Palácio em Chaves e tinha outro em Barcelos e até era onde vivia e pelo que sabemos era bastante pomposo, porque será que veio a Guimarães que não lhe pertencia fazer o Palácio ???

Não era dele mas tinha as rendas lá do dote da história do casamento, e sabemos que esse foi um dos motivos mas existe uma outra razão. E a razão era esta:

Este Palácio foi construído depois da conquista de Ceuta, isto se passou posteriormente a 1420, como sabemos a conquista de Ceuta foi em 1415.

Ora em Ceuta dizia-se, pelo menos o rei achava que aquela gente de Barcelos não se tinha portado com aquela bravura que o Rei queria. E o Rei deu-lhes um castigo. O povo de Barcelos tinha que vir todos os anos com umas grandes vassouras varrer a Praça a Guimarães. 

Ora bem, O Duque de Bragança era filho do rei que impôs esse castigo aos de Barcelos e portanto ao mudar o seu Paço de Barcelos para Guimarães era uma espécie de acrescentar o seu próprio castigo ao castigo real. 

Se é verdade ou não, apenas se levantou a ponta do véu mas é uma hipótese que fica para pensarmos...



Mas nem só de histórias antigas a nossa Guimarães prevalece, hoje em dia podemos contar com muitas mais histórias que dignificam esta cidade, mas irei apenas contar uma que sem sombra de dúvida se sobressai de uma forma invulgar e a isso devemos à Sociedade Francisco Martins Sarmento.


   Foi um investigador e Arqueólogo do século passado. Foi formado em Direito pela Universidade de Coimbra mas nunca chegou a exercer esse curso. Sabemos que foi filho duma família abastada de Guimarães mas donde se notabilizou foi sem dúvida pela descoberta das ruínas da Citânia de Briteiros e Sabroso entre 1874 e 1879 donde residia.

Mas o que realmente aqui importa destacar é esta Sociedade e sem dúvida uma lição para a nossa sociedade de hoje e veremos porquê!

Valeu-lhe o reconhecimento de instâncias Internacionais e em 1882 o Governo Françes deu-lhe a legião de honra. Ai os Portugueses disseram o seguinte:

"Então a Legião de honra é muito importante  e resolveram lhe prestar uma homenagem. E essa homenagem não foi dar-lhe o nome duma Rua ou duma Praça, não foi fazer um monumento, foi uma coisa muito mais importante. Fizeram uma Associação Cientifica encarregada não só de estudar o passado mas sobretudo de promover o progresso para o futuro e fizeram Martins Sarmento sócio Honorário numero 1  da Sociedade. 

Depois disso Martins Sarmento viveu ainda muitos anos e a Sociedade também. A Sociedade chegou até aos nossos dias como uma Instituição cheia de vigor sendo a primeira revista editada em 1881. Após a Fundação desta Sociedade Martins Sarmento teve uma ideia brilhantíssima e única para a época, fazer uma exposição Industrial. Porque Guimarães tem tradições muito antigas como por exemplo a fiação de linho, e usando esta perspectiva Industrial e futurista pensou em usar esta herança do passado para projectar no futuro. E assim se realizou a primeira Exposição Industrial de Guimarães em Julho de 1884.

Mas eu não acredito que seja essa tradição da tecelagem do linho esteja na raiz da Indústria Têxtil da região de Guimarães e por uma razão muito simples, linho se fiava por muitas regiões do País de Norte a Sul mas de notar a região de Guimarães onde de facto tinha uma força imensa. E podemos lembrar o que foi toda essa região do Vale do Ave onde trabalhavam cerca de 40.000 pessoas ligadas a todas essas Indústrias tanto de vestuário e Têxtil. 

Essa Indústria na década de 90 facturava por ano cerca de 650 milhões de contos. Um número impressionante em contraste com os "fundos doados pela União Europeia" e por esse motivo se esqueceu o verdadeiro sentido do dinheiro ganho honradamente. Os 650 milhões de contos queriam dizer 2 milhões de contos por dia que entravam em Portugal.

Por isso se falou em crises e tantas outras que por aí andaram e ainda hoje continuamos a falar delas. É difícil manter uma Indústria onde existem em concorrência com essas populações que aceitam os salários da fome e que trabalham 12 horas por dia por uma tigela de arroz. É difícil mas não é impossível, porque a solução sempre esteve na qualidade e a qualidade Portuguesa, o gosto e o primor das nossas mãos consegue realizar produtos que são únicos no Mundo. E isto é de tomar nota! 

  Esta é a Biblioteca de Martins Sarmento e uma fotografia datada da época, e vou aproveitar para vos lembrar a edição numero 1 da revista de Guimarães, sobre o artigo de Alberto Sampaio que anunciava a necessidade duma Exposição Industrial. E nesse artigo diz o seguinte:

"Este pobre povo Português tem visto tudo, tem visto tudo sem compreender nada. Revoluções, contratos comerciais desastrosos, influências boas e más, tudo lhe tem passado por cima como um ciclone e não tem deixado senão ruínas." 
E mais adiante diz " Fazer pensar é tudo e a agitação é a única alavanca que pode deslocar este mundo."

Fazer pensar é tudo!

É precisamente aqui que está o propósito de escrever estes artigos para este blogue. 

Relembrar, pensar e meditar sobre estas palavras eruditas ou não, mas palavras de sabor a verdade. 

Fazer pensar é sem dúvida uma medida inteligente para darmos a volta aos problemas que estamos mergulhados hoje em dia!


Devem estar lembrados que eu comecei estes parágrafos em dizer que Guimarães foi um berço! Mas também foi um cais. 
  E para terminar este artigo vou lhes contar mais uma história, mas agora da época dos Filipes em Portugal ou melhor dizendo, quando Portugal foi Espanha! E vou falar duma personagem notável, o Padre António Vieira.

O Padre António Vieira uma vez disse num sermão, que queria dar uma ideia de Portugal e disse isto, que eu acho que é extremamente belo:

 " Portugal é um palmo de terra para nascer e um Mundo inteiro para morrer". 

E nesse sentido Guimarães é uma imagem de Portugal!

Um exemplo notável foi uma pesquisa feita no Brasil sobre os apelidos Portugueses relacionados com nomes de terras.  Exemplos como Porto, Beja, Lisboa, Castelo Branco enfim uma série enumerável de apelidos encontrados fomos encontrar um nome que se notabilizou de longe, o apelido que prevalece até os nossos dias entre os emigrantes do Brasil, Guimarães. Mesmo se pesquisarmos isto em Lisboa ou no Porto há de facto uma grande diferença em termos percentuais entre o nome Guimarães e por exemplo Lisboa. E por exemplo tem terras que nem nome tem, como é o caso de Portimão, Famalicão, a Guarda é um nome muito raro, mas Guimarães enxameou e fecundou o Mundo inteiro. Por onde a gente vá, existe sempre um Guimarães.

   Outro exemplo notável sobre este nome Guimarães foi do Bispo e Governador Don. Alexandre Guimarães que viveu sua vida em Macau. Filho de Pais Minhotos que emigraram para o Brasil e casaram na Baía vindo dai a nascer esse menino que veio a ser o Bispo em Macau e mais tarde vindo a morrer em Lisboa.

De certo que nunca mais pararia esta lista infindável de casos notáveis que engrandeceram esta cidade e também é claro as nossas origens. Mas vou parar por aqui fazendo um pequeno intervalo até ao próximo artigo que irei dar continuação por falar das brumas da memória mas seguirei escrevendo sobre o nascimento de Portugal.





  

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